A Trajetória da Split Britches
A companhia Split Britches cria trabalho de colaboração, planejado, centrado no texto e baseado em performance teatral. Enfoca os problemas da sexualidade, gênero e representação do gênero e conta com a apropriação e intervenção da cultura popular. Origina-se do desejo: o desejo de fazer visível o invisível e desafia as convenções não apenas do teatro tradicional e cultura dominante, mas as convenções das sub-culturas políticas, sociais e estéticas. Nos definimos, individual e coletivamente, como artistas performáticas independentes que usam a presença viva, as múltiplas disciplinas da arte, cultura popular e quaisquer meios imaginados ou necessários para comunicar idéias complicadas, desviar crenças de longas datas e desafiar normas sociais e teatrais. Nosso propósito tem sido manter um senso de humor, amar as palavras e pintar novas figuras, continuar sendo o fora-da-lei, questionar o 'normal', trabalhar dentro das margens das margens e apresentar o desejo de nossos corações.
Nosso processo nasceu do teatro experimental dos anos 60 e 70 e os movimentos políticos conjuntos(anti-guerra, feminismo, gay). Através das influências de grupos como o Open Theatre, o Performance Group e o Living Theatre pudemos abandonar o teatro como uma forma de arte intepretativa e, ao mesmo tempo, apropriar-se de convenções teatrais a fim de produzir trabalho original que refletisse nossas visões políticas e sociais. Duas de nós três (Peggy Shaw, Lois Weaver) estavam envolvidas com o feminismo da metade da década de 70 (Spiderwoman Theater) onde o processo enfocava o coletivo e o uso da história pessoal como texto político. Abraçamos os princípios do feminismo, mas resistimos ao seu dogma. Resistimos às expectativas e às limitações da norma vigente e do movimento e apresentamos nossas fantasias mais excêntricas e problemáticas. Nos anos 80, quando formamos a Split Britches (com Deb Margolin) nosso trabalho estava enraizado na comunidade gay, mas era muito menos sobre 'sair do armário' e mais sobre como vestir-se, questionar e explorar relações entre homens e mulheres e seus mundos. Ao combinar isso com o que tínhamos aprendido com a Spiderwoman e o trabalho que Peggy tinha realizado com o grupo teatral drag(inversão de papéis), Hot Peaches, começamos a desenvolver o que Sue Ellen Case chamou de trabalho criado e de ‘butch femme aesthetic’(estética da lésbica masculina/feminina) que subvertia noções de gênero e identidade através da apropriação da cultura popular. A Split Britches estava crescendo juntamente com a cena teatral performática da New York Downtown dos anos 80 e estava influenciada por um número crescente de artistas inter-disciplinares da arte visual e dança pós-moderna. Os efeitos da economia da era Reagan nos empurrou para fora dos teatros e para dentro das salas-de-estar, galerias e vitrinas de lojas. Começamos o WOW Theater numa loja em 1983 e que se tornou a sede para a Split Britches e a anfitriã para outras artistas jovens (Five Lesbian Brothers, Carmelita Tropicana, Lisa Kron). Naquela altura, tínhamos desenvolvido um processo e estética que carregamos até os anos 90 e mudamos da forma de atuar em trio (Deb, Lois and Peggy) para duo (Lois, Peggy), turnês em solo e colobarações com outras artistast (Holly Hughes, Bloolips, Gay Sweatshop, Stacy Makishi, Reno). Nesse mesmo tempo, tínhamos nossa própria história e nossas próprias teorias (Feminista e Gay)e tínhamos atraído crítcas acadêmicas o suficiente para se tornar perguntas em exames. Isso nos abriu portas para as universidades, trabalhos como professoras em universidades e residências artísticas.
Ensinar tem sido sempre um acompanhante aos nosso trabalho de teatro. Oficinas em comunidades com a Spiderwoman (1975-80), a Working Girls School Of Theatre at WOW (1983-87), a Queerschool com a Gay Sweatshop (1993-94), e residências artísticas em universidades nos Estados Unidos e Reino Unido nos deram não apenas acesso a recursos como bibliotecas, histórias de vida, estúdios de ensaio, grupos de produção e máquinas de xerox, mas também nos ajudaram a desenvolver idéias grandes com grupos diversos. Pudemos trazer nosso processo e estética para a consideração de problemas como raça, classe, violência doméstica e direitos humanos. Mais recentemente, nosso compromisso de ensinar e experimentar com a metodologia performática como um meio de remeter aos problemas sociais nos levou das prisões femininas no Brasil e Inglaterra com a Staging Human Rights (Peoples Palace Projects - projetos de direitos humanos) à uma residência artística em Taipei, explorando representações de gênero e sexualidade em Taiwan (Women Theatre Festival) e nosso involvimento em projetos e intervenções que investigam a intersecção da performance e os direitos humanos ( PSi12: Performing Rights, www.performingrightslibrary.org). Deb é atualmente Professora do Departamento dos Estudos de Teatro em Yale e Lois é Professora de Performance Contemporânea na Queen Mary University of London. Peggy ensina independemente e conduz residências sobre performance solo e criação de colaborações (SUNY Oswego em colaboração com Safe House).
E turnê era nossa sobrevivência. Entendíamos a necessidade de fazer turnês no começo de nossas carreiras com a Spiderwoman e a Hot Peaches. Como nossos ancestrais de vaudeville, se fossemos trabalhar, tínhamos que viajar. Mas também éramos tentadas pela idéia romântica de levarmos uma vida de andarilhas pelo mundo afora. Nos anos 90, nos associamos a um circo de performers alternativos que faziam turnês pela Europa, Inglaterra, Escandinávia apresentando-se em festivais de mulheres e fringe. Desde então, a visibilidade crescente gay, turnês pelas universidades, mais espaços pequenos de performance nos Estados Unidos e o cuidadoso desenvolvimento de colaborações trans-nacionais nos possibilitaram trazer este trabalho para nossa "casa"(Austin, Seattle, Miami, Minneapolis, LA, Phoenix) e levá-lo para longe (Nova Zelândia, Hong Kong, Buenos Aires).
Agora, no novo milênio, nosso trabalho já foi publicado (Split Britches, Feminist Performance/Lesbian Practice, 1997) está na web www.splitbritches.com) e está arquivado (http://hemi.nyu.edu/archive/hidvl/Index.html). E ainda continuamos em cima dele: ainda produzindo trabalho, ainda viajando, às vezes, juntas, às vezes, separadas, ainda procurando meio de intervir, comunicar e permancer no presente. Nestes últimos trinta anos, estudantes, platéias e amigos freqüentemente nos perguntam onde queremos estar nos próximos cinco ou dez anos. Esta pergunta implica um tipo de viagem na direção de um gol, de um objetivo, de uma conclusão. Mas como nosso trabalho, nossa trajetória não é um caminho tão direto ao topo da montanha ou até mesmo um platô. É uma estrada de barro que passa entre montanhas e vales. Desta forma, quando as pessoas nos perguntam onde queremos estar no futuro, sempre dizemos, "Só queremos permancer no caminho".
Tradução: Wilson Loria



