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Silvana Seabra de Oliveira
Pontificia Universidade Católica de Minas Gerais
Email: seabrabh@terra.com.br
Carmem Miranda: Uma performance de Brasil - dos balangandãs à
religiosidade "
"E eu com eles? !" (Carmem Miranda, 1941)
Este trabalho pretende apresentar a figura
de Carmem Miranda (cantora e atriz) que marcou profundamente o imaginário
brasileiro desde os anos 30. As comemorações dos 90 anos
(1999) de nascimento de Carmem Miranda são bastante significativas
dessa importância. A lista de atividades incluiu desde o lançamento
de novas biografias (1999) até a exposição dos seus
figurinos e o lançamento de um museu, formando um imenso acervo.
Mas talvez o mais intrigante na exposição de 1999, sobre
Carmem Miranda, possa ser remetido ao momento ápice da atuação
e sucesso do transformista Lana Miranda, atestando assim o caráter
performático do conjunto, sem o qual as peças não
passam de um amontoado de curiosidades excêntricas.
É possível que toda a obra de Carmem tenha se tornado peça
"museológica" ou "folclórica", numa
espécie de autoafirmação da imagem que ela representou
tão bem para "inglês ver". No entanto, Carmem continua
promovendo polêmicas que extrapolam sua vida pessoal ou sua morte
prematura. Morta desde 1955, tempo suficiente para que duas gerações
crescessem sem ouvir muitas de suas músicas e sem assistir a vários
de seus filmes, ainda assim o mito sobrevive. Passado, contudo, o frenesi
da época, também é possível avaliar que os
dons que a fizeram dela uma estrela talvez não provocassem os mesmos
efeitos se aplicados a outro tipo de música como, por exemplo,
uma música mais discreta e sóbria, longe da imagem de Carnaval
que ela imortalizou.
Sendo assim, não há como avaliar Carmem Miranda longe de
seu chocalhar de "balangandãs", do seu vestuário
exótico, da incorporação da baiana como tipo nacional,
das frutas na cabeça e do movimento de mãos, do samba e
do Carnaval.
Julgada mais que estudada, Carmem Miranda e seus chamados exageros estéticos
compõem com outras figuras da mesma época uma galeria de
tipos e representações nacionais. É provável
que a muitos desagradou ver o Brasil identificado com uma mulher de gestos
frenéticos, que, longe de criticar o exotismo criado sobre nós,
faz dele sua marca, promovendo-o ao exagero, e a símbolo de identidade
nacional. Mas é, provavelmente, nas citações dos
elementos constituintes de Carmem Miranda que se concentrem a difícil
aceitação. Tais aspectos abrangem desde a cultura popular,
passando pela cultura afrobrasileira com o samba e o Carnaval e incorporam
também traços da cultura americana. São inegáveis
também que muitos dos seus filmes e de sua performance denotam
aspectos do racismo e mostra o preconceituoso olhar estrangeiro sobre
a America Latina e em especial sobre as mulheres brasileiras. No entanto,
a manipulação dos elementos por Carmem Miranda tornou-a
única e indecifrável, mas também coloquem uma dubiedade
nessa significação. Carmem não foi a primeira mulher
latina a fazer sucesso nos EUA, porém não se enquadrou dentro
dos modelos anteriores: o de objeto sexual exótico ou o do cômico
(Roberts, 2002).
"Miranda is unique in that she initially straddle both categories:
she was perceived by contemporary as simultaneous sexy and comic, a vamp
and a joke. The split created a tension between her hypersexualized visual
presence available through performance as spectacle, foregrounding her
body, and her comic oral presence available through interviews (
)"
(Roberts, 2002, p. 144)
As ambigüidades se apresentavam de
forma intensa em todos os aspectos que incluíam tanto as características
de gênero, de nacionalidade ou de pertencimento social. Esses elementos
podem ser percebidos tanto na construção da persona como
na atuação/performance de Carmem Miranda, embora seja importante
salientar novamente que tais elementos só fazem sentido em ato.
É portanto nesse caráter duplo que remete de um lado aos
figurinos e aos adereços, e de outro, à própria performance
que é possível antever a dubiedade e o aspecto escorregadio
da significação ou do que representava a figura de Carmem
Miranda.
Carmem Miranda e seus Balangandãs: cultura popular, samba e religião
Carmem Miranda se origina de um contexto muito específico no Brasil:
o de uma certa modernidade iniciada no final do século XIX. Os
novos padrões que nos chegavam da Europa, estabeleciam novas formas,
projetos e linguagens sociais, conferindo à cidade um novo ritmo.
No entanto, seria ingênuo imaginar que os padrões estéticos
que chegavam fossem reproduzidos no mesmo sentido dos de origem. Se a
modernização era um fato notório, a maneira como
a sociedade a incorporava mostra uma inventividade social e a imprevisibilidade
das trocas culturais. A chegada do rádio, do cinema e finalmente
da TV construíram um repertório inédito de novas
fontes culturais que se manifestavam, sobretudo, como padrões estéticos
e culturais. Carmem Miranda expressa em sua trajetória muito desse
novo ambiente frenético diante das transformações.
Era apaixonada pelo cinema, adorava as modas, sendo ela própria,
numa fase de sua vida, costureira e chapeleira. O ponto mais importante
da composição de Carmem Miranda é o seu abandono
da verbalização ou escrita e o nascimento de um "tipo"
inteiramente performático de linguagem não-verbal:
"Com seu talento e esforço pessoal , assistindo a filmes,
estudando fotografias, pesquisando modas, ouvindo discos, ela se tornou
mestra em todo tipo de linguagem não verbal: risos,olhares, penteados,
roupas, chapéus, adereços, saltos altos, gritos, gemidos,
sussuros, canto e encanto." (Sevcenko, 1998)
Nos anos 30, Carmem Miranda faz uma viagem à Bahia e fica profundamente
impressionada pela cultura popular, em especial pela cultura afro-brasileira.
Dessa experiência nasceu a incorporação da baiana
como base dos figurinos posteriores que tem no filme "Banana da Terra"(1938)
sua encarnação mais vigorosa. A figura da baiana representa
não apenas uma "cor local", mas está profundamente
associada à religiosidade de origem africana que tem, por sua vez,
uma expressão performática intensa. À época
em que Carmem toma o figurino da baiana como elemento básico e
constante, o Brasil de uma maneira geral, passa por mudanças que
redefinem o lugar da comunidade e da cultura negra na imagem que o Brasil
faz de si próprio. Nesse sentido, Carmem Miranda ao incorporar
a cultura negra como elemento fundamental, acaba por exercer influência
sobre a imagem da multirracialidade brasileira. Durante os anos 30, a
população negra tem parcial reconhecimento, que vem sobretudo
através do samba, tomado como ritmo nacional. É impossível
separar o samba da dança e a dança da religião. Assim
samba e candomblé e também a umbanda formam um amálgama
identitário.
Dessa forma, Carmem Miranda adotava como padrão e não mais
como desvio parte da cultura africana. A "embaixatriz do samba"
como Carmem foi chamada, teve papel para no reconhecimento do "samba
do morro"-o samba da população pobre, que vivia nos
morros da cidade do Rio de Janeiro. A adoção da baiana como
modelo básico das roupas de Carmem Miranda acabou desembocando
na identificação baiana/Brasil e influenciou a idéia
de Brasil promovida junto aos EUA e que posteriormente se espalhou para
o mundo via Indústria Cinematográfica Fox. À roupa
da baiana, no entanto, Carmem acrescentou seu tom pessoal, segundo ela
própria afirmou em 1941, em entrevista:
"An'I say, I will put theez dress an'seeng theez song. You can't
put theez dress, they say, because theez dress only Negroes put. Bah!'
She gave it the brush-off, 'I put, but in gold an' silk an' velvet,an'I
seeng in Rio." (Miranda, 2002)
A afirmação de Carmem Miranda exibe novamente a duplicidade
. A roupa da baiana, o turbante e os adereços, no mesmo momento
em que são reconhecidos, recebem um outro componente externo, como
a seda ou o próprio veludo. Assim Carmem é um espetáculo,
uma performance da cultura negra com pitadas de cor pessoal, algo que
lembra muito o desfile das "escolas de Samba" . A versão
de Carmem não pôde ser contida nas roupas, significou também
a performance da baiana e trouxe consigo a citação silenciosa
e indireta dos terreiros de candomblé ou umbanda, todos dirigidos
por mulheres negras em trages como aqueles atribuído às
baianas.
Muito dos movimentos, colares e chocalhos produzidos nas atuações
de Carmem Miranda remetem ao espetáculo do candomblé. Os
iniciados sabem que as pulseiras com seus balangandãs possuem um
significado místico e que devem produzir um som e uma composição
visual e sonora especial. O frenesi do chacoalhar das pulseiras, dos movimentos
das mãos e revirar dos olhos típicos da Carmem Miranda podem,
também, nos remeter aos aspetos do "transe" nos ritos
afrobrasileiros do candomblê e da umbanda. Estilizados ou não,
novamente a citação é presente. Tanto podem sugerir
uma redenção a algo que é superior, mágico
e extra mundano, como uma processo de sedução de um "outro",
em que Carmem é quem produz e exerce a sedução, mas
também pode ser compreendida como um corpo tomado e seduzido. Onde
muitos viram histeria, pode se ver a performance da dubiedade brasileira.
O exagero nas cores, das frutas e de todos os elementos do tropical podem
ser lidos como cliché da mulher representando uma natureza/lugar
(Brasil), "terra nulis", pronta a ser explorada pelo outro (homem
ou país) . Por um lado, a idéia de que estetização
seja a contrapartida da despolitização mereceria, no mínimo
a crítica da estetização como anulação
política. No caso específico do Brasil, por várias
vezes foi sugerida a idéia do exótico/tropical como dotada
de positividade política, como dado fundamental na construção
identitária brasileira. Desde os modernistas com o Manifesto Antropofágico
até se tornar um movimento próprio nos anos 60 - o Tropicalismo
.
Da Performance da língua à "ginga"
A performance de Carmem, parece sempre produzir algo "fora da ordem".
Sendo portuguesa de nascimento e branca parece não fazer muito
sentido a explicação que remete à legitimidade, seja
do uso dos aspectos afro-brasileiros, seja na utilização
do registro a nível nacional. Carmem Miranda foi nesse sentido
uma total indeterminação do seu sentido. O caráter
de uma incompreensão encontra no inglês falado por Carmem
Miranda um ponto exemplar. Carmem Miranda foi muito criticada por seu
péssimo inglês, o que pode ser compreendido como mais um
estereótipo: o da incapacidade dos "outros", sobretudo
dos latinos em falar corretamente o inglês. Se esse dado é
verdadeiro de maneira geral, não é menos interessante notar
que o inglês de Carmem Miranda nunca foi impecilho ao seu sucesso.
Mais do que isso, a impossibilidade da compreensão, em especial
a dos americanos, deixa entrever o "mal-estar" em não
controlar o "outro" por inteiro. Segundo Roberts(2002), se por
uma lado a impossibilidade de compreensão das palavras atesta a
ilusão de superioridade masculina americana branca; por outro revela
um espécie de entusiasmo de liberdade com ou sem linguagem. Segundo
Roberts:
"(...) the freedom allowed by songs when the listener has 'no clue
to their meaning' - the freedom experienced through the recognition of
the artifice, as opposed to the essence, of social definitions of ethnicity
and femininity."(Roberts, 2002, p.147)
A concepção da "linguagem não verbal-religiosidade-sedução"
encontra ainda uma corroboração num outro aspecto apontado
por Sevcenko (1998), o da "ginga". A "ginga" se refere
à movimentação básica da Capoeira (outro elemento
típico da cultura africana), cuja característica fundamental
é a de um movimento que não define padrão e portanto
se mostra como imprevisível ao adversário. Além disso,
a ginga se liga à sedução na medida em que é
posta em ação somente no momento em que é desafiado.
Ainda segundo Sevcenko:
"(...) o efeito da ginga é desestabilizar a lógica
combativa do oponente. Nesse sentido a ginga é literalmente uma
contrafação, jogo, uma destreza desenvolvida em um nível
instintivo que rouba ao adversário a sua capacidade de ação
ao lhe tolher os padrões usuais de percepção e representação."
É no desempenho, numa performance que sempre mantém algo
de imprevisível que Carmem Miranda exerce seu fascínio.
Os elementos de construção da "persona" remetem
a universos muito particulares da cultura brasileira, todos eles por sua
vez performáticos em essência, como é o caso da religiões
afrobrasileiras. A ambiguidade por seu turno afirma, como muitas outras
vezes se discutiu, ser um traço marcante da cultura nacional.
Ainda sobre a a performance cheia de indeterminação não
há como negar os dotes pessoais de Carmem Miranda no exercício
da ginga. Mesmo porque, é no desempenho individual da maestria
do gingar que reside a possibilidade de se manter no jogo e escapar dos
golpes do adversário. A performance da ginga, seja na linguagem
falada, seja na linguagem do corpo exige ainda uma outra cosmovisão,
"(...) um estado de espírito, aquele dos que vêem o
mundo pelo viês do que é fluido, inconstante, vário
e contingente"(Sevcenko, 1998, p. 614).
Carmem Miranda: Performance, cultura e mediação cultural
Podemos recortar as perspectivas de crítica ao fenômeno Carmem
Miranda, em dois blocos. De um lado se encontravam os partidários
da construção de um Brasil em moldes europeus. Tal ideal
recusava a idéia do tropical porque associava-o ao modelo evolucionista
que afirmava a inferioridade da cultura ao sul do Equador. A versão
da figura feminina também não agradava, em função
do sexismo e se agravava na figura de Carmem Miranda que reunia a um só
tempo o tropical ao feminino. Muito há que se dizer dessa análise,
mas detenhamos apenas alguns aspectos. Em primeiro lugar a figura feminina
como representante nacional. Já durante os primeiros tempos da
república (Carvalho,1990) a tentativa de representar a pátria
na figura feminina (ação típica da República
francesa) resultou em total fracasso e escárnio. A mulher pública
no Brasil nunca foi a dos ideais de liberdade ou luta, pelo contrário,
esteve sempre associada à prostituta. Pode-se, portanto, inferir
o incômodo que, provavelmente causava ao país se ver representado
por uma mulher do mundo da música, da dança e que levava
elementos da cultura popular e afro-brasileira, que muitos queriam negar
no afã de se assemelhar à Europa. A outra vertente se associa
ao marxismo, que por outros caminhos resultava muito próximo à
primeira perspectiva. Os marxistas acusavam Carmem de "ter se vendido"
aos interesses capitalistas americanos, servindo à "política
da boa vizinhaça". Numa visão nacionalista de viés
anti-americano, Carmem Miranda foi produto puro dos norte americanos que
apresentava o Brasil como exótico, destituindo a "verdade
da miséria brasileira" e substituindo-a por uma versão
hollywoodiana de bananas e requebros femininos muito ao gosto dos sonhos
americanos, que oferecia sobretudo prazer e deleite. O "mal-estar"
pode ser lido na resposta de Carmem contida na música "Dizem
que eu voltei americanizada" ou ainda em "Voltei pro Morro",
onde ela praticamente pede desculpas e reafirma seu compromisso e identificação
com o Brasil.
Se são inegáveis os estereótipos sobre os latinos
contidos nos filmes em que Carmem atuou, é questionável
que o prazer obtido pelo público se ligue de maneira direta aos
ditames da "política da boa vizinhança". Nesse
sentido, a recepção de Carmem passa por uma complexidade
maior daquele prazer, que enfatiza muito mais os aspectos visuais do que
qualquer mensagem racional vinda do front da política Brasil/Estados
Unidos. A ambiguidade que todo texto contém, encontra em Carmem
Miranda um exemplo notório.
Carmem sempre foi autora a de sua imagem, ela própria desenhava
seus figurinos, dos pés à cabeça, há, portanto
uma "assinatura" que não pode ser remetida aos conceitos
de ideologia ou de cooptação política como muitos
acreditam. Sua performance, incluindo seu inglês às vezes
incompreensível, suas entrevistas que sempre revelavam uma comicidade
e seus exageros nos adereços parecem ter produzido deslizamentos
dentro do próprio texto, subversões da leitura mais óbvia
que a liga aos inegáveis estereótipos sobre os latinos e
em especial sobre as mulheres, e mulheres brasileiras em geral.
Por fim, Carmem Miranda é ela própria um mediador cultural
(Velho & Kuschnir, 2001) de variadas facetas. O mediador cultural
pode ser compreendido como aquele indivíduo que circula em diferentes
mundos, estilos de vida e experiências. Não necessariamente
o indivíduo tem a mediação como projeto pessoal,
mas acaba, por razões diversas, desempenhando tal função.
O mediador cultural, mais do que levar e trazer informações
de um mundo ao outro, pode eventualmente se tornar ele próprio
um agente de transformações. Tal ação, no
entanto, vai depender das circunstâncias históricas e do
desempenho pessoal do mediador, como uma espécie de talento pessoal.
São exemplos de mediadores de caráter mais tradicional os
sacerdotes e os capatazes, mas em função das transformações
ligadas à modernização e modernidade podem se tornar
mediadores os artistas, os carnavalescos e mesmo os políticos (Velho
& Kuschnir, 2001,p. 27).
Carmem Miranda pode ser vista como um mediador cultural entre vários
mundos já que Carmem Miranda atuou na intermedição
do mundo da cultura popular para o mundo da cultura oficial ao inserir
aspectos da religiosidade afrobrasileira em sua construção
estética e em sua performance, mediando também uma multirracialidade
brasileira, mesmo não estando em discussão a justeza do
tipo de apropriação que os mundos farão dos elementos
trocados. Ela mediou o nacional e o internacional, mais especificamente
na relação Brasil-EUA dos anos 30 e 40. A mediação
à qual nos referimos não se reduz à política
da "boa vizinhança" levada a cabo pelos EUA por toda
América Latina, ela se refere a representações de
Brasil, ideais de modernidade e de identidade que se produziam entre nós
e entre "esse outro", que pode ser lido como sendo os EUA, mas
pode significar um desejo dos brasileiros por um tipo de modernidade,
um modelo de capitalismo
Talvez parte da animosidade que o Brasil demonstrou contra Carmem Miranda
na sua volta ao Brasil possa ser atribuída ao sentimento de traição,
muito próprio da experiência dos "indivíduos"
que atuam como mediadores, mas que são autores e estabelecem um
marca pessoal e criativa à sua performance. A idéia de traição
se apresenta comumente quando:
"(...)o mediador é trazido para dentro do segmento dominante,
e sua mediação dá certo, (...) seja ela veículada
pelo próprio mediador, que se vê como alguém que se
afastou de suas raizes, seja do ponto de vista daqueles permaneceram no
seu meio social de origem". (Duarte, 2001, p. 132).
Parece ser esse não pertencimento a lugar algum que incomoda,nem
brasileira total nem americana, branca de pele, mas com gestos afro-brasileiros,
nem cá nem lá. Uma espécie de "entre lugar"na
feliz expressão de Silviano Santiago. O mediador carrega a carga
do não pertencimento, mas possui ao mesmo tempo a capacidade de
estar cá e lá.
Além de considerar Carmem Miranda como mediadora cultural, seria
interessante pensar a própria performance de Carmem como uma teatralização
de mediação. Assim, os espetáculos podem ser compreendidos
como encenações de mundos em contato. Nesse caso, a mediação
pode ser lida em mão dupla - assim como Carmem Miranda representou
"um Brasil", em especial para o público norte americano,
também é possível entrever uma imagem dos EUA que
os brasileiros de certa forma idealizaram. A possível subversão
do texto "Carmem Miranda/Brasil/mulheres" se enreda perfeitamente
ao papel de mediador cultural, que abre por sua vez outras possíveis
leituras e análises, produzindo uma resistência do encerramento
do fenômeno. Talvez seja essa a força incômoda, porque
evoca possibilidades e seduz mais do que explica, que produza a continuidade
de Carmem Miranda, seja através do seu legado nunca decifrado,
seja pela repetição da encenação obcessiva
do personagem.
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in KUSCHNIR, Karina, VELHO, Gilberto (orgs). Mediação Cultura
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