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Denise Zenicola
NEEPA - Rio de Janeiro
Email: denisezenicola@aol.com
O POVO DE RUA
A proposta deste trabalho é estender
um olhar sobre as Performances do cotidiano urbano, do povo que ocupava
as ruas do Rio de Janeiro, no século XIX - os escravos.
I - Os escravos, a base da economia urbana
Durante praticamente todo o século XIX, a propriedade escrava foi
comandada para a produção e venda de bens de consumo, organizada
em trabalho coletivo, a partir de um comando de produção.
Nos centros urbanos, as casas eram uma espécie de unidade de produção,
distribuição e consumo. Grande parte do objeto pessoal e
de uso doméstico era fabricado na própria residência,
o excedente para ser vendido nas ruas, pelos próprios escravos
das casas. Tais escravos eram chamados de "escravos de ganho".
O comando das atividades ficava a cargo da mulher, a dona da casa. Era
ela quem mantinha sob controle a limpeza da casa, a preparação
dos alimentos, o comando das escravas, além de dirigir a indústria
caseira. Era de grande variedade, a mercadoria dos tabuleiros das escravas
ou dos escravos -quitutes, bebidas, tecidos e toalhas bordadas .
Os escravos, além de atuar no comércio ambulante e nas vendas
alegrando a cidade com seus gritos, também transportavam pessoas
em pequenas cadeiras, prostituíam-se ou pediam esmolas. Os escravos
cuidavam de todas as necessidades dos seus donos e realizavam toda sorte
de trabalho mecânico para eles. As formas de utilização
da mão de obra escrava, bem como a forma de divisão dos
lucros, podiam variar de casa para casa: A vida cotidiana do escravo era
organizada e vigiada por seu dono.
Embora os escravos quase sempre fossem impedidos de compartilhar da riqueza
que geravam, o fato de poderem circular num ambiente urbano, a cidade
do Rio de Janeiro, oferecia algumas possibilidades de ganhos adicionais.
O escravo habilidoso, dependendo de acordo prévio feito com seu
dono, poderia ter parte do seu lucro assegurado. Os poucos que conseguiam
prosperar poderiam comprar a sua própria liberdade e até
investir seu dinheiro comprando escravos para servi-los, além de
fazer diferenciados negócios envolvendo terras, alimentos ou jóias
de ouro e prata.
De acordo com Debret, o tiro de canhão que anunciava a abertura
dos portos começava o dia às cinco e meia da manhã
na cidade. As vendas eram feitas em tempo integral ou parcial, dependendo
das necessidades do seu dono. Ao anoitecer, os ambulantes poderiam trabalhar
ainda em casa, caso houvesse necessidade. Finalizando o dia de trabalho,
se tivessem direito à parte do lucro, utilizavam seus ganhos para
a compra de mais comida ou roupas, de objetos de ritual religioso, alguns
importados da África ou talvez juntassem economias para comprar
a sua própria liberdade. Esta jornada de trabalho repetia-se de
seis a sete dias por semana sendo respeitados, por poucos donos de escravos,
os domingos e feriados de direito oficial.
Outro tipo de trabalho bastante valorizado era o das escravas que faziam
e lavavam roupas e as que faziam rendas. As roupas eram lavadas em pelo
menos três diferentes áreas da cidade. As roupas eram lavadas,
batidas nos muros e estendidas no gramado para secar. Os escravos lavadores
de roupa exerciam tal função para o seu próprio dono
e ou para terceiros, em troca de pagamento.
Existiam algumas diferenciações de trabalho, segundo o sexo,
ou melhor, a força do braço. As mulheres ocupavam-se mais
com o negócio de produtos agrícolas e a fabricação
doméstica e os escravos homens negociavam mais produtos animais.
"Havia ainda os vendedores de ervas, os feiticeiros, as rezadeiras,
os tata inkisses, os conhecedores dos mistérios das folhas e dos
deuses... os negros conhecedores dos mistérios de Katendê
e Ossanhê" (BAPTISTA, 1999, 70).
De todos, o tipo de serviço menos valorizado era feito pelos escravos
chamados de tigres, depois das dez horas da noite e consistia em levar
em baldes pesados os dejetos das famílias para serem despejados
na praia mais próxima. Este serviço era geralmente praticado
por escravos doentes, velhos ou como forma de castigo. Não se sabe
ao certo a origem deste nome, algumas fontes afirmam serem originados
pelos respingos dos dejetos no corpo.
É difícil, portanto, definir fronteiras para os diversos
grupos sociais dessa sociedade escravista do século XIX. Tanto
entre os libertos quanto entre os escravos existiam os que eram favorecidos
e os mais miseráveis, os escravos naturalmente, dependiam da condição
financeira do seu dono. O que se pode observar é o estabelecimento
de uma relação de dependência entre os elos nesta
cadeia de trabalho, onde escravos vendiam os produtos e mantinham, com
o fruto do seu trabalho, mulheres ou famílias inteiras. Tais famílias,
que embora dependessem do trabalho dos seus escravos, administravam toda
a produção.
Os escravos viviam em uma sociedade que restringia com fronteiras e punições
os seus movimentos. Fortes, prisões e pelourinhos lembravam-nos,
a toda hora, o poder do seu senhor. Uma sociedade hierarquizada que os
mandava para as ruas, onde poderiam usufruir um aparente ar de liberdade,
de se estar na rua para comprar, vender, prostituir-se, roubar ou mendigar,
mas que deixava bem claro até onde ia esta liberdade.
II - O espetacular no cotidiano
Os espaços públicos no Rio de Janeiro do século XIX
funcionavam como pontos de convergência - espaços dinâmicos
de suporte de artes performáticas. As praças e ruas tornavam-se
pontos de encontros e facilitavam distintas formas de interação
social entre seus freqüentadores habituais, os escravos. Tais espaços,
constituíam-se, segundo Brugger, a "base da estrutura e da
identidade das primeiras cidades coloniais brasileiras", evoluindo
para o acontecimento de "inúmeras formas de interação
social" (BRUGGER, 2000). A chegada do peixe fresco ao mercado, as
negras vendendo apetitosas frutas tropicais, o transporte de objetos nas
carroças ou pessoas em cadeirinhas, pequenos intervalos roubados
entre uma atividade e outra _ dão a medida da diversidade do meio
urbano, verdadeiros locais de trabalho, passeios, encontros e performances
políticas. Estes espaços eram também para castigos
exemplares, citando os pelourinhos, entre tantos.
Canto, dança e batuque no trabalho
Na rua, os negros cantavam e vendiam bugigangas, em praticamente todos
os lugares. Os escravos trabalhavam nas mais diversas atividades e cantavam
no movimento do mercado, no pregão dos ambulantes. Os grupos de
carregadores cantavam em coro em sua língua africana ou em Português,
enquanto circulavam pelas ruas com pesados fardos sobre as cabeças.
Era comum o canto como forma de manter o ritmo em trabalhos que exigiam
a força do grupo como equipe para manter a unidade; os escravos
que puxavam tonéis de água sobre um carro de quatro rodas,
por exemplo, costumavam cantar.
Ao circular na venda de seus produtos, havia um tipo de canto na cidade
que era bastante peculiar. Era o pregão dos vendedores ambulantes,
uma espécie de propaganda dos produtos à venda, que anunciavam
as mercadorias pelas ruas. No pregão, a performance consistia de
cantos e gritos de melodias, em forma rimada, acompanhado ou não
de tambor ou violão, verdadeiro jingle de publicidade. Às
vezes, paravam para descansar, reunindo-se em torno de um cantor principal
e cantando em grupo.
Quando era possível carregar junto com os produtos para venda,
levavam pequenas Marimbas também conhecidas como Kalimbas ou Malimbas,
um instrumento africano, composto de meia parte de um coco onde se prendem
pequenas hastes de metal, para serem tocadas com os dois polegares. Havia
tambores de muitos tamanhos e formatos e, com esses instrumentos de sua
terra, celebravam e evocavam "lembranças de casa nas canções
de sua terra natal" (GRAHAM, 1988, 315).
Os escravos também improvisavam com as ferramentas da profissão
tirando sons destes materiais para acompanhar suas músicas. Qualquer
que fosse o tema ou motivo, os escravos cantavam no trabalho, acompanhados
freqüentemente por instrumentos variados, uma característica
essencial do 'clima' da cidade. Dentre os instrumentos musicais utilizados,
encontravam-se os africanos como também os europeus. Era comum
que escravos tocassem: violinos em barbearias, orquestras da elite e bandas
e coros de igreja.
Este hábito de usar instrumentos africanos e europeus e de misturar
tradições musicais começou, em parte, com os escravos
músicos que tocavam violinos para clientes, enquanto esses cortavam
os cabelos.
Além de tocarem instrumentos europeus, vários escravos aprenderam
também as músicas européias A música "branca"
das Igrejas e salões do Rio de Janeiro chegava às ruas da
cidade, os escravos cantavam acrescentando melodias européias à
batida dos tambores. Além de cantos e batuques, os escravos dançavam.
Em qualquer lugar podia-se formar uma roda de batuque que naturalmente
evoluía para uma dança animada e 'frenética', segundo
o termo de muitos historiadores. Debret cita em seus relatos:
..."o escravo parava na rua e começava
a cantar; outros, que eram seus compatriotas, reuniam-se em torno dele.
Acompanhavam-no com um refrão ou um certo grito, um tipo de refrão
estranho articulado em dois ou três sons. Após o canto, começava
uma pantomina improvisada por aqueles que iam para o centro do círculo.
Durante a encenação, as faces dos atores ficavam possuídas
por "delírio". Outros ainda batiam palmas, duas batidas
rápidas para uma lenta. Com o fim da canção, o encantamento
desaparecia; cada um seguia seu caminho friamente, pensando no açoite
do senhor e na necessidade de terminar o trabalho que fora interrompido
pelo "delicioso intermezzo". ( apud GRAHAM, 1988, 322)
Além da dança recreativa,
a dança do jogo lúdico ou ritual, da roda, havia ainda a
Capoeira, luta em que aprendiam golpes mortais - luta destinada à
autodefesa e a seus inimigos. No século XIX, os negros de ganho
e os carregadores praticavam essa forma de dança - luta e freqüentemente
chegavam a ser presos por ferir ou mesmo matar um inimigo com um golpe.
Com o passar dos anos, a Capoeira foi proibida, porém, quando a
polícia não estava por perto, os escravos usavam os momentos
de ócio jogando a Capoeira nos mercados do Rio de Janeiro. Desta
forma, o canto, a dança e o batuque, ocorridos nas ruas da cidade,
definiam o ritmo do trabalho, do lazer, da dor, do tédio, do Banzo.
A presença dos ritmos e movimentos africanos marcava na cadência
do compasso a presença da escravidão no Brasil.
Canto, dança e batuque no laser
Um homem com as mãos no ar e uma mulher com as mãos nas
cadeiras dançando um em direção ao outro (Rugendas).
Em seu pouco tempo de lazer os escravos
atuavam em reuniões religiosas secretas nas quais preservavam antigas
crenças, treinavam Capoeira, ou simplesmente iam para as ruas se
encontrar, cantar, dançar e batucar. Os registros policiais declaram
uma aglomeração de aproximadamente 1800 escravos no campo
de Santana onde, em tal ocasião, "os dançarinos movimentavam-se
dentro e fora de um grande círculo com"todas as variedades
concebíveis de contorções e gesticulações,
enquanto quem observa no círculo dava gritos de aprovação
e batia palmas"(GRAHAM, 1988, 327).
O tocar dos tambores propiciava o agrupamento de escravos. Tal fato, em
1833, foi proibido por um juiz, alegando que o som dos atabaques atraía
escravos de fazendas mais distantes e a polícia passou a prender
os que dançavam ao som dos atabaques. "A polícia dispersou
um grupo de mais de 200 escravos que estava dançando ao som de
tambores" (GRAHAM, 1988, 316). A origem de tal proibição
foi possivelmente o perigo potencial que tais aglomerações
poderiam apresentar. Para driblar esta proibição, os escravos
utilizavam qualquer objeto que estive ao alcance, como instrumento de
percussão: peças de cerâmica e ferro, conchas, pedras,
latas e até pedaços de madeira ou as próprias mãos.
Desta forma, os escravos passaram a dançar também ao som
das palmas. O bater da palmas ritmadas alcançava variações
como duas rápidas e uma lenta, a batida mais comum. Apesar das
proibições e perseguições da polícia,
os escravos cariocas continuaram realizando danças na cidade. Três
das mais representativas deste período eram o Lundu, o Batuque
e a Capoeira.
O barulho e as histórias da rua, as idéias e imagens de
representação coletiva com suas origens e acomodações
dentro do espaço público fascinavam os viajantes que pintavam
freqüentemente seus trajes originais. Como define Brook, um verdadeiro
"Teatro Rústico" ou, como preferimos nomear uma verdadeira
Performance Urbana do Cotidiano, nem por isso menos espetacular. Nas ruas,
três elementos marcavam e delimitavam o acontecimento desta Performance
Urbana do Cotidiano: A repetição ou o lado mecânico
do processo, rodas de cantos e danças que se formavam constantemente;
a celebração, ou melhor, a representação que
pode tornar presente tradições e mitos ancestrais dando-lhes
vida; a assistência, uma platéia sempre participativa. Performances
próximas do povo, que se retro alimentavam dele.
Entre proibições e formas alternativas de festejos, os músicos
e vendedores ambulantes que tocavam guitarras européias e atabaques,
cantavam e dançavam ao ritmo de palmas ou tambores iam juntando
suas tradições musicais em instrumentos diversos, criando
uma acumulação de bens culturais. O Rio, a capital do Império
e principal centro urbano da América do Sul neste período,
através do povo de rua produzia música, canto e dança
mesclado numa mistura de sons e movimentos, forjando um estilo brasileiro
harmonioso e peculiar. A escravidão, nesse caso, era realmente
uma cacofonia de tradições culturais rica e híbrida.
III - E agora, José?
Com o tempo as liteiras e carros de bois entraram em desuso; o trânsito
aumentou trazendo pouco a pouco mais movimento. A cidade tornou-se um
cenário diferente. Passaram-se os anos e o Rio "a maior concentração
urbana de escravos existentes no mundo desde o final do Império
Romano" (ALENCASTRO, 1997, 24) mudou muitas vezes, no entanto, uma
maioria negra ladeada de poucos brancos continua a carregar outras tinas,
agora são caixas de isopor e plástico ao invés de
cestos, os quilombos acabaram e nasceram as favelas, as ruas continuam
abrigando novos perigos.
Quem vende hoje nas praças, seus becos e ruas? Hoje, os escravos
modernos, ambulantes, camelôs, crianças, famílias
inteiras de rua e loucos transitam por estes espaços. Como são
as Performances do Cotidiano Urbano do Rio, de circulação
de informações, de lazer, de ordem e desordem? Como são
esses momentos de transgressões espetaculares?
Segundo Baptista, na cultura atual de condomínios, "o 'povo
da rua', personagem 'diabólico' da cultura popular que vive nas
encruzilhadas, não tem vez neste projeto arquitetônico asséptico
e sem transversais. São espaços que estilhaçam uma
ética que se diz universal, mas que necessita da proteção
da polícia e das grades dos condomínios fechados para o
bom funcionamento" (1999, 38).
As performances foram se adaptando aos novos mundos sociais que por sua
vez foram sendo definidos por novas convenções e estabeleceram
outro caráter na ocupação destes espaços.
Os negros, ainda têm uma "subsistência" mínima
garantida nas ruas e praias do Rio de Janeiro.
Ao fazer uma entrevista com um casal de negros numa praia do Rio, um homem
e uma mulher que fazem parte da história das ruas do Rio de Janeiro,
o rapaz, um jornalista e sua companheira formada em Estética, com
muito orgulho mostraram colares, pulseiras brincos, os balagandans de
outrora, fruto de uma pesquisa que eles vêem desenvolvendo sobre
a história das missangas e sementes e o caminho que estes materiais
correram desde a África, mais especificamente do povo Massai, até
chegar ao Brasil.
Ao final da entrevista falando sobre a perseguição que a
polícia faz com freqüência aos ambulantes, o casal Carlos
e Nishpara declarou: "Em tempo de paz qualquer pessoa tem o direito
de ir e vir com os seus bens..." art. 5, parágrafo 9 da Constituição
Brasileira. Este é um exemplo do atual povo de rua, não
mais escravo de ganho, camelô autônomo, dois trabalhadores
e legítimos co-autores da história de um país chamado
Brasil.
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Fontes Outras:
Entrevista, 25/10/2001- Carlos e Nishpara,
praia do Rio de Janeiro, ambulantes de materiais de adorno em missangas.
CARLOS E NISHPARA - artesanatos em missanga - bhajanbr@yahoo.com.br
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