UNIVERSIDADE DO RIO DE JANEIRO
CENTRO DE LETRAS E ARTES
PROGRAMA DE POS-GRADUAÇÃO EM TEATRO

CURSO HEMISFÉRICO: PERFORMANCE E POLÍTICA
A CONQUISTA DO BRASIL

Este curso será ministrado simultaneamente na Universidade do Rio de Janeiro pelo prof. Zeca Ligiéro, na New York University pela prof. Diana Taylor e na Pontífice Universidad Católica do Peru pelo prof. Luis Peirano Falconi e coordenado através de uma rede compartilhada de computadores (web-site).

DESCRIÇÃO GERAL DO CURSO:

O curso analisa as políticas de performance na conquista das Américas com foco no Brasil. Desde o tempo pré-descobrimento até o estabelecimento da autoridade portuguesa na colônia, nós testemunhamos uma radical mudança na ordem hegemônica, a ordem imperial (monárquica e cristã) vai sendo imposta, substituindo a outra ­ a indígena. A Performance foi a primeira forma de troca de significados utilizada pelas duas culturas em questão (européia e indígena) que procuravam, uma manter e a outra contestar, a autoridade social. Nós vamos analisar as profundas mudanças que ocorreram nas performances culturais no encontro com o outro, e examinaremos como a performance foi estrategicamente alterada e usada por vários grupos sociais para atingir seus objetivos. Através de uma cuidadosa revisão bibliográfica nós tentaremos chegar a uma apreciação crítica da complexa função da performance no drama político da conquista e colonização do novo mundo. Em nosso estudo devemos ficar atentos ao fato de que os significados da performance no novo mundo são relativos e contextuais, pois todo o material está impregnado das diferenças culturais, sociais e ideológicas.

Esse é o primeiro curso ministrado sob os auspícios do novo Instituto Hemisférico de Performance e Política (NYU-UNIRIO-PUC-PERU). Cada curso enfatizará a questão a partir da própria cultura mas seguirá uma estrutura similar e terá uma bibliografia essencial para os três. Nessa rede de computadores funcionará um programa de tradução que permitirá a leitura de todo material dos cursos. Além disso, os alunos dos três países poderão participar das discussões que semanalmente serão atualizadas e que incluem aulas, palestras e debates.

O curso será organizado na forma de um seminário de pesquisa. Os alunos deverão desenvolver projetos de investigação independentes a partir do material e trabalhar com fontes primárias sempre que possível. Será estimulada a pesquisa em colaboração entre alunos dos Estados Unidos, Peru e Brasil. O projeto final será apresentado via Internet no final do curso.


PROGRAMA DO CURSO INTRODUÇÃO: O ESPETÁCULO NO CONTEXTO DO NOVO MUNDO

Na unidade introdutória vamos nos ater aos significados e ao poder da performance manifestas no período pré ­ descobrimento. É preciso resistir a usual tentação de entender as performances dos indígenas pelo ponto de vista do conquistador; como na maioria dos estudos da história tradicional, mas também perceber a problemática múltipla dos enquadramentos coloniais tipicamente usados para interpretar as performances das nações ditas primitivas. As performances trazidas pelos africanos desde os primeiros anos de colonização serão tambem objeto de estudo uma vez que elas apresentam incríveis semelhanças com as ameríndias no seus conteúdos e nos seus aspéctos espetaculares.

Aula 1- O conceito de performance e a suas múltiplas abordagens.

Aula 2 - As performances afro-ameríndias e a cultura brasileira

Aula 3 -O espetacular no ritual ameríndio e o no africano


UNIDADE 1: PERFORMANCE PRÉ ­ DESCOBRIMENTO

Na unidade I analisaremos a performance pré-descobrimento como um complexo de comportamentos sociais produtivos que se manifestam na cosmologia nativa. Nós analisaremos o papel da performance no mapa fundamental das relações espaço-temporais e seus poderes de manutenção e contestação da ordem pré-estabelecida. A performance nativa radicalmente desafia as premissas da maioria das teorias do drama ocidental, no que se refere às noções de mimesis, representação, efêmero e repetição.

Aula 4 - As principais etnias e grupos lingüísticos dos índios brasileiros-- diferenças e parecenças.

Aula 5 - Os Kamaiurás e os Kuikuras: O Mito de Mavutsin e a criação do Sol e da Lua.

Aula 6 - Toré: Os índios habitantes da costa brasileira e suas performances (Tupinambá, Tupi, Kariri-Xocó e Guarani) Leitura: Debret, Jean Baptiste.Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. São Paulo: Universidade de São Paulo, l989. Leyla Perron-Moise, Vinte Luas - Viagem de Paulmier de Gonneville ao Brasil - 1503-1505. Companhia das Letras, RJ. 1992.


UNIDADE 2: A POLÍTICA E A POÉTICA DO ENCONTRO

Na segunda unidade analisaremos o encontro colonial em si como um momento perfomático de fundação. Nós leremos a carta de Pêro Vaz de Caminha como o primeiro documento português descrevendo "a nova terra" e estabelecendo o paradigma da construção do "outro", paradigma este que informa sobre os subsequentes encontros entre portugueses e nativos. Enfocando o Brasil, nós compararemos como foram apreendidas as diferentes performances: a dos conquistadores europeus e a dos povos que aqui habitavam, refletindo sobre seus distintos sistemas de significação e crenças religiosas. Daremos especial atenção para momentos em que os dois a apreciar os inesperados efeitos de seus comportamentos performáticos. Nós testemunhamos uma radical desarticulação do universo social dos nativos do Brasil em relação aos regimes de comportamento e organização social imposta pelos conquistadores (portugueses, espanhóis, holandeses e franceses). A presença das culturas africanas e suas performances secretas serão também objeto de discussão.

Aula 7 - Ritos da invasão Portuguesa

Aula 8 - Ritos de afirmação das culturas ameríndias e a leitura do europeu

Aula 9 - Ritos de afirmação das culturas africanas (Kongo, Gege e Iorubá)


UNIDADE 3: TEATRO DE CONQUISTA E EVANGELIZAÇÃO


Como o teatro foi usado para fins militares e espirituais na conquista do Brasil? Nesta unidade examinaremos os modelos trazidos por Portugal e analizaremos o uso e abuso do teatro como instrumento da colonização. Nós examinaremos festas e celebrações dos primeiros séculos de colonização e consideraremos como as performaces teatrais providenciaram espaços para imposição e contestação de uma nova cosmologia religiosa e social. Nós analizaremos também importantes documentos de transculturação ou sincretismo que marcaram o período.

Aula 10 - A missa, o poder colonial e o espectador índio

Aula 11 - O teatro do Padre José de Anchieta

Aula 12: A igreja católica brasileira: o lugar do sagrado e do profano


UNIDADE 4: TEATRALIDADE E AUTORIDADE COLONIAL

Nesta unidade, analisaremos o papel do teatro e do teatralismo na manutenção do poder e da autoridade colonial. Como o espetáculo foi usado como mecanismo de implantação da uma ordem na esfera pública e também para exercer o controle sobre os assuntos coloniais. Examinaremos também os mecanismos da performance desenvolvidas pelo poder imperial.

Aula 13: Espetáculos públicos de crueldade: perseguições, espancamentos

Aula 14 - Espetáculos de gala do Reino Português

Aula 15 - Conclusões e apresentações finais.


BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR DISPONÍVEL NA WEB DO INSTITUTO HEMISFÉRICO

Inga Clennendin, from Aztecs: an interpretation, "Ritual: The World Transformed, the World Revealed"

Miguel León Portilla, Broken Spears: The Aztec Account of the Conquest of Mexico/Visión de los vencidos: relaciones indígenas de la conquista

Enrique Florescano, "The Nahua Concept of Space and Time," Memory, Myth, and Time in Mexico: From the Aztecs to Independence.

Birth of Huitzilopochtli, in Miguel León de Portilla, Pre-Colombian Literatures of Mexico Festejos, ritos propiciatorios y rituales prehispánicos (Teatro Mexicano, historia y dramaturgia, vol. 1, 1992)

Columbus, Letters: first letter Max Harris, "The Question of the Other," The Dialogical Theatre: Dramatizations of the Conquest of Mexico and the Question of the Other (1993) 125-171.

Peter Hulme, Colonial Encounters: Europe and the Native Caribbean.

Roberto Fernández Retamar, "On Caliban: Notes on a Discussion of Culture in Our America" in Caliban and other Essays

Richard Trexler, "We Think, They Act: Clerical Readings of the Missionary Theatre in 16th Century New Spain" in Steven Kaplan, ed. Understanding Popular Culture: Europe from the Middle Ages to the Nineteenth Century (1984) 189­227.

El Baile de la Conquista, en The Native Theatre in Middle America 211­239 [Guatemala]

Marilyn Ekdahl Ravicz, Early Colonial Religious Drama in Mexico: From Tzompantli to Golgotha (1970)

Toribio Motolinia, Historia de los Indios de Nueva España, Capitulo XV

Auto del sacrificio de Isaac, textos en Teatro de evangelización en náhuatl (Teatro Mexicano historia y dramaturgía, Vol 2)

Toribio Motolinia, Historia de los Indios de Nueva España, Capitulo XV Description of La conquista de Rodas by Bernal Díaz de Castillo

Holy Wednesday, en Louise Burkhart ed. Holy Wednesday: A Nahua Drama from Early Colonial Mexico, (UP Pennsylvania, 1996)

El Güegüence o macho ratón

Gustavo Correa y Calvin Cannon, "La Loa en Guatemala" (in The Native Theatre in Middle America) 10-56, 63-92

Alejandro Cañeque, "Theater and Power: Writing and Representing the Auto de Fe in Colonial Mexico", in The Americas (Jan 96)